Foto: Vinicius Becker (Diário)
O processo seletivo de vagas complementares da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), criado para ocupar vagas remanescentes dos principais sistemas de ingresso, como o Sisu, o Processo Seletivo Seriado (PSS) e o vestibular, tem registrado graduações com alto número de cadeiras não preenchidas. Nos últimos três anos, a instituição acumulou nos quatro campi (Santa Maria, Cachoeira do Sul, Frederico Westphalen e Palmeira das Missões) 3.607 vagas ociosas. Só em 2026, foram ofertadas 2.183 vagas restantes e, com 1.098 aprovados, 1.085 permaneceram sem ocupação.
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O cenário se repete ao longo dos últimos dois anos. Em 2025, foram 887 vagas ociosas na chamada do primeiro semestre, e 254 na segunda. Já em 2024, o primeiro processo registrou 1.128 vagas não preenchidas, enquanto o segundo, 253.
Contexto nacional ajuda a explicar cenário
O aumento das vagas ociosas na UFSM ocorre em um contexto mais amplo de transformação no Ensino Superior brasileiro. Dados do 16º Mapa do Ensino Superior, elaborado pelo Instituto Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) com base no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e com apuração de dados até 2024, mostram que, apesar do crescimento de matrículas no país, que chegaram a 10,2 milhões em 2024, esse avanço é alavancado principalmente pela educação a distância (EaD).
Pela primeira vez, a modalidade a distância superou o ensino presencial, concentrando 50,7% dos estudantes. Atualmente, 49,3% das matrículas no ensino superior brasileiro estão em cursos presenciais, sendo 63,3% delas na rede privada. Mesmo assim, foi justamente o setor privado que mais contribuiu para a retração: suas matrículas presenciais caíram 31,8% na última década, enquanto a rede pública se manteve relativamente estável no período.
Na UFSM, os efeitos desse cenário aparecem de forma concreta ao longo dos últimos três anos. Em 2026, por exemplo, Engenharia de Transportes e Logística, no campus de Cachoeira do Sul, que lidera a ociosidade entre os campi neste ano, tem 58 vagas não preenchidas de um total de 80. O histórico recente reforça o padrão: o curso somou 74 vagas ociosas em 2024 e 75 em 2025, considerando as duas chamadas anuais.
No campus sede, em Santa Maria, o maior volume de vagas não ocupadas em 2026 está no curso de Alimentos, com cerca de 50 vagas remanescentes em um total de 100 ofertadas. A graduação também apresenta recorrência no indicador, 69 vagas ociosas em 2024 e 56 em 2025.
Ao ser questionada sobre como justificar os custos para manter a estrutura de cursos com alto número de vagas não preenchidas, a Universidade, por meio de sua acessoria de imprensa, afirma que o financiamento não está diretamente vinculado ao total de vagas ofertadas, mas ao número de estudantes efetivamente matriculados, com base na Matriz da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Matriz Andifes), utilizada como referência para a distribuição de recursos entre as universidades federais.
— O repasse de recursos federais para a universidade é regido pela Matriz Andifes, que computa o número de alunos efetivamente matriculados, e não o total de vagas ofertadas pelos cursos. Dessa forma, o orçamento é distribuído conforme a ocupação real, garantindo a responsabilidade fiscal — explica.
A UFSM afirma que a ociosidade é, além de não ser um fenômeno isolado da instituição, um reflexo de mudanças estruturais na sociedade, como a redução da população jovem no Rio Grande do Sul e a reconfiguração do valor atribuído ao ensino superior.
— Há uma percepção contemporânea de questionamento sobre o retorno imediato de uma graduação longa frente às novas dinâmicas do mundo do trabalho — aponta a universidade.
Ociosidade nos campi fora da sede
A recorrência de vagas ociosas nos campi fora da sede aparece de forma consistente nos dados mais recentes da UFSM. O levantamento da reportagem mostra que cursos dessas unidades figuram repetidamente entre os que apresentam o maior número de vagas não preenchidas ao longo dos últimos três anos.
O campus de Cachoeira do Sul tem três de suas seis graduações entre as 10 com maior ociosidade da universidade nos últimos três anos. Além de Engenharia de Transportes e Logística, que lidera o ranking geral de 2026, também aparecem Engenharia Elétrica, com 51, e Engenharia Mecânica, com 45 vagas ociosas. As duas graduações, que disponibilizam por volta de 80 vagas por ano, tiveram, respectivamente, 160 e 130 não preenchidas em 2025 e 2026.
Situação semelhante é observada em Palmeira das Missões, em 2026 três de suas seis graduações aparecem entre os cursos com maior ociosidade. O curso de Administração (Diurno) registra 45 vagas não preenchidas em 2026 e acumula 79 vagas ociosas nas edições de 2024 e 2025. Em Ciências Biológicas, foram 35 vagas ociosas em 2026, além de um total de 55 vagas não ocupadas nos dois anos anteriores. Zootecnia consta 32 vagas ociosas em 2026 e acumula 62 nos dois anos anteriores.
No campus de Frederico Westphalen, embora as chamadas complementares ocorram apenas no primeiro semestre, a presença entre os cursos com maior ociosidade também é recorrente. Ao longo dos últimos três anos, graduações como Engenharia Ambiental e Sanitária e Engenharia Florestal, que oferecem 60 vagas por turma, aparecem de forma consistente entre as maiores sobras de vagas. Em 2026, os dois cursos registram 54 e 52 vagas ociosas, respectivamente, após acumularem cerca de 100 vagas não preenchidas cada umentre 2024 e 2025.
Para a UFSM, a concentração de vagas ociosas fora da sede está ligada a fatores territoriais e demográficos. Em cidades menores, a universidade avalia que a procura tende a ser mais limitada em comparação a centros urbanos maiores.
Apesar dos números, a instituição sustenta que a manutenção dos cursos nesses campi não segue uma lógica de mercado ou de ocupação imediata, mas integra uma estratégia de desenvolvimento regional.
— A manutenção desses campi é um compromisso estratégico de desenvolvimento regional, pois a universidade injeta recursos nas economias locais e fixa profissionais de alta qualificação nessas regiões — afirma.
A universidade também afirma que não existe um “limite” de alunos para o encerramento de cursos, mas sim um acompanhamento contínuo da viabilidade acadêmica.
— Não há um número específico que determine o fechamento de um curso. O que existe é um monitoramento e, quando necessário, processos de reestruturação — explica.
A instituição cita como exemplo a criação do curso de Ciência de Dados e Inteligência Artificial, no campus de Cachoeira do Sul, a partir da reestruturação da Engenharia Agrícola, que teve sua oferta reduzida para 40 vagas em 2025, com redistribuição das demais para a nova graduação.
Apesar das adaptações, a UFSM reforça que a manutenção de cursos com baixa procura também está ligada ao compromisso com a formação em diferentes áreas.
Novo processo seletivo em transição
A UFSM reconhece que a dificuldade de preenchimento de vagas complementares também está ligada ao processo de transição nos modelos de ingresso. É o caso do PSS, que teve a primeira turma ingressante em 2026, e do vestibular, retomado de forma regular em 2024, após uma edição extraordinária no segundo semestre de 2023.
— O aumento no número de vagas remanescentes está ligado ao período de transição e implementação dos novos processos seletivos, que visam fortalecer o caráter regional e a permanência estudantil — afirma a instituição.
Em diferentes cursos, os números de inscritos são significativamente inferiores ao total de vagas ofertadas. Em Alimentos, no campus de Santa Maria, por exemplo, apenas uma pessoa se inscreveu para as 40 vagas do PSS em 2026. No mesmo curso, o vestibular registrou 14 candidatos para 30 vagas.
O cenário se repete em outras graduações. Em Engenharia Acústica, foram três inscritos no PSS para 16 vagas e cinco para 12 no vestibular. Já em Gestão de Turismo, três candidatos disputaram 20 vagas via PSS e cinco se inscreveram para 15 no vestibular.
Nos campi fora da sede, a baixa adesão é ainda mais evidente. Em Cachoeira do Sul, cursos como Engenharia de Transportes e Logística e Engenharia Mecânica não tiveram ingressantes no PSS em 2026. No vestibular, a procura também foi limitada, com cinco candidatos para o primeiro e 22 para o segundo, para 24 vagas disponíveis para cada curso no processo.
No campus Frederico Westphalen, Engenharia Ambiental e Sanitária não registrou inscritos no PSS e teve apenas quatro candidatos no vestibular para 18 vagas. Em Engenharia Florestal, também não houve inscritos via PSS, com oito candidatos no vestibular para o mesmo número de vagas.
Segundo a instituição, os dados mais recentes apontam para o avanço no número de inscritos no PSS: em 2026, enquanto a etapa de ingressantes teve pouco mais de mil participantes, a primeira já ultrapassou cinco mil inscritos.
Confira os cursos com mais vagas ociosas nos últimos três anos:
2026
Curso | Campus | Vagas Ociosas |
Engenharia de Transportes e Logística | Cachoeira do Sul | 58 |
Engenharia Ambiental e Sanitária | Frederico Westphalen | 54 |
Engenharia Florestal | Frederico Westphalen | 52 |
Engenharia Elétrica | Cachoeira do Sul | 51 |
Alimentos | Santa Maria | 50 |
Engenharia Mecânica | Cachoeira do Sul | 45 |
Administração (Diurno) | Palmeira das Missões | 45 |
Ciências Biológicas | Palmeira das Missões | 35 |
Engenharia Acústica | Santa Maria | 33 |
Zootecnia | Palmeira das Missões | 32 |
Processos Químicos | Santa Maria | 32 |
2025 (1ª e 2ª chamadas)
Curso | Campus | Vagas Ociosas |
Engenharia de Transportes e Logística | Cachoeira do Sul | 75 |
Engenharia Elétrica | Cachoeira do Sul | 73 |
Engenharia Mecânica | Cachoeira do Sul | 61 |
Alimentos | Santa Maria | 56 |
Engenharia Ambiental e Sanitária | Frederico Westphalen | 48 |
Engenharia Florestal | Frederico Westphalen | 46 |
Administração (Diurno) | Palmeira das Missões | 41 |
Música (Bacharelado) | Santa Maria | 34 |
Zootecnia | Palmeira das Missões | 32 |
Ciências Biológicas | Palmeira das Missões | 31 |
2024 (1ª e 2ª chamadas)
Curso | Campus | Vagas Ociosas |
Engenharia Elétrica | Cachoeira do Sul | 89 |
Engenharia Agrícola | Cachoeira do Sul | 79 |
Engenharia de Transportes e Logística | Cachoeira do Sul | 74 |
Engenharia Mecânica | Cachoeira do Sul | 71 |
Alimentos | Santa Maria | 69 |
Engenharia Florestal | Frederico Westphalen | 55 |
Engenharia Ambiental e Sanitária | Frederico Westphalen | 52 |
Engenharia Acústica | Santa Maria | 51 |
Matemática - Licenciatura (Noturno) | Santa Maria | 47 |
Administração (Diurno) | Palmeira das Missões | 38 |